Povo Licanantay: como água, solo fértil e lhamas transformaram o Deserto do Atacama em um território habitável

Muito antes de San Pedro de Atacama se tornar um destino turístico internacional, o povo Licanantay aprendeu a reconhecer duas raridades decisivas: água utilizável e terra fértil. A partir delas, articulou um modo de vida que interliga a agricultura, o pastoreio e o comércio em um dos ambientes mais áridos do planeta.

Quem olha para o Deserto do Atacama, logo imagina um território vazio. A paisagem árida e espetacular parece confirmar essa primeira impressão: grandes extensões de terra seca infértil, salares, montanhas e uma vegetação que surge apenas em pontos muito específicos.

Porém, essa leitura do território atacamenho está incompleta. No Atacama, a vida se organiza em torno da água. Onde ela alcança a superfície por rios, nascentes ou fluxos subterrâneos, surge a possibilidade de viver. Afinal, sem água, não há aldeia, rebanho, plantio ou colheita.

Ainda assim, a água sozinha não basta. A bacia do Salar de Atacama concentra sais que, em grande parte do território, impedem o desenvolvimento da maioria das plantas. Logo, também é preciso encontrar também terras férteis, onde a irrigação possa sustentar o cultivo. 

Em outras palavras, a vida depende do raro encontro entre água potável e solo cultivável.

E foi nesses pontos de encontro que o povo Licanantay se organizou neste território inóspito. A água sustenta os rebanhos, as aldeias e o cultivo. A coleta complementa a nutrição. E o pastoreio e caravanas de lhamas conecta essa rede de recursos que se estende em diferentes cenários e altitudes.

Em razão disso, esses fatores não podem ser compreendidos separadamente. Juntos, eles formam um mesmo sistema de adaptação capaz de produzir, armazenar e fazer circular recursos em uma região onde nenhum assentamento conseguia ser autossuficiente e obter sozinho tudo aquilo de que precisa.

O povo Licanantay não pertence ao passado

Antes de avançar, é importante corrigir um erro comum de interpretação. O povo Licanantay não é uma sociedade extinta, que desapareceu e deixou apenas ruínas e sítios arqueológicos. As comunidades nativas seguem presentes nos oásis, nas quebradas do rio Loa e nas localidades próximas ao Salar de Atacama.

Seus conhecimentos tradicionais continuam presentes na agricultura, no pastoreio, na organização comunitária e nos calendários cerimoniais. Festividades, limpezas dos canais e celebrações ligadas aos ciclos agrícolas e ganadeiros continuam expressando sua relação íntima com o território. Logo, isso muda completamente a forma de contar essa história. 

Pois não estamos falando apenas sobre como as antigas populações conseguiram sobreviver no deserto. Estamos falando de um conhecimento acumulado durante gerações, transformado ao longo do tempo e ainda reconhecível na maneira como diferentes comunidades se relacionam com a água, com a terra, com os animais e com os ciclos naturais do deserto.

Água e terra fértil definem onde a vida pode florescer

O Atacama não oferece os mesmos recursos em todos os lugares. Água e terras cultiváveis aparecem em pontos específicos. Por isso, os Licanantay aprenderam a reconhecer essas diferenças e a utilizar altitudes e paisagens de maneira complementar.

Na borda norte do Salar de Atacama, as águas dos rios San Pedro e Vilama, somadas a fluxos subterrâneos, ajudaram a formar os oásis. Dentro deles, os ayllus (comunidades familiares cooperativas) formam pequenas ilhas de bosques e terras férteis, separados por longas extensões de áreas secas e salares. 

Nos oásis e nas áreas irrigadas ficavam moradias permanentes e os terrenos cultivados. Já nas áreas de campo ficam as pastagens e estâncias utilizadas durante o deslocamento dos rebanhos. E mais acima, nos cerros e ambientes de altitude, há outros vegetais, lenha, fauna silvestre e zonas de pastoreio.

Essa distribuição geográfica exige movimento. Uma família podia cultivar em um ponto, manter animais em outro e buscar recursos adicionais a dezenas de quilômetros de casa. O território, portanto, não termina nos limites da aldeia. Ele é habitado por meio da conexão entre lugares diferentes e, muitas vezes, distantes.

Sem água, sem vida

No deserto, água é tudo. Ela define onde a vida pode se fixar, quantas pessoas um lugar consegue sustentar, quais plantas podem crescer e por quanto tempo um rebanho pode permanecer. Porém, localizar uma nascente ou viver próximo a um rio é só o começo. Nem toda água está disponível no lugar, momento ou nas condições necessárias para o cultivo.

Afinal, grande parte da água que alimenta a bacia vem das áreas altas dos Andes. O degelo abastece os rios, reservas subterrâneas e vertentes que descem em direção ao salar, já que as chuvas são raras. Na região de San Pedro de Atacama, os rios San Pedro e Vilama tornaram possível a formação dos oásis. Conhecer seus cursos, variações e pontos de captação é um conhecimento vital.

Assim, os Licanantay desenvolveram terraços agrícolas, ou andenerías, conhecidos no mundo inteiro como retratos da paisagem andina de cultivo. E também os sistemas de canais capazes de conduzir a água até as áreas cultiváveis. Esses terraços viabilizam o plantio em terrenos inclinados, com os canais ampliando a superfície irrigada e permitindo a distribuição de um recurso raro cujo desperdício é inaceitável.

Porém, nada disso funciona sem coordenação social. É necessário também construir muros, abrir, desobstruir e manter canais, organizar turnos e manter essa infraestrutura em condições de uso. 

Logo, a água não apenas atravessa a paisagem: ela também atua na distribuição de tarefas, responsabilidades e relações entre famílias. A permanência da prática de limpeza comunitária dos canais até os dias de hoje demonstra o quanto a manutenção dessa infraestrutura faz parte da vida social e cultural do território do Atacama.

Terra fértil: outra raridade no Deserto do Atacama

Se a água é a primeira condição para a agricultura, solo fértil é a segunda. A crosta branca dos salares torna esse contraste bastante visível. Onde os sais se acumulam em excesso, quase nenhuma planta consegue se desenvolver. Por isso, apenas irrigar um pedaço qualquer de deserto não é o suficiente para transformá-lo em lavoura.

Essa salinidade extrema não é explicada somente pela ideia de que o salar é “o antigo fundo do mar de outra era geológica”. O Salar de Atacama se desenvolveu em uma bacia continental fechada, sem saídas para o oceano. Ao descer das montanhas após o degelo, a água transporta sais e outros minerais dissolvidos para as áreas mais baixas. A evaporação natural retira a água mas deixa os sais, que vêm se concentrando ao longo de milhares de anos. Por isso, o cultivo é impossível sobre a crosta salina, pois o sal deixa a terra estéril.

E é por isso que a atividade agrícola se concentra nos oásis, quebradas, margens e baixios dos rios (chamadas de vegas) onde água, sedimentos e relevo criam condições diferentes. Os ayllus de San Pedro de Atacama são “ilhas” de terras férteis rodeadas pelo deserto. A terra produtiva é uma exceção, reconhecida, ocupada e venerada por gerações.

E mesmo nesses espaços raros, o terreno precisa ser preparado e mantido. O solo agrícola é, ao mesmo tempo, uma condição oferecida pelo lugar e uma paisagem construída pela força do trabalho coletivo. Afinal, tanto água sem terra quanto terra sem água não resolvem o problema. 

A permanência Licanantay nasceu da combinação dessas duas raridades, água e terra fértil, e do conhecimento desenvolvido ao longo das gerações do povo atacamenho para mantê-las produtivas.

Plantio, colheita e armazenamento formam um ciclo

Já ficou claro que somente quando água e terra cultivável se encontram é que pode haver ciclos de plantio. Nas áreas irrigadas, os Licanantay cultivavam milho, quinoa, batatas, feijões, abóboras e pimentas. A combinação de culturas vegetais varia de acordo com a altitude, as condições locais e o período histórico.

Além disso, algarrobos e chañares tinham grande importância. Seus frutos podem ser consumidos e também transformados em farinhas e bebidas. Mas é importante distinguir as atividades: milho, quinoa e outros alimentos fazem parte do cultivo; já algarrobo e chañares eram obtidos por meio da coleta e do manejo das árvores presentes naturalmente nos oásis.

No entanto, produzir e colher é só uma parte do ciclo de trabalho. Em um território árido e com tantas variações ambientais, também é necessário guardar parte da colheita. Por isso, foram desenvolvidas estruturas de armazenamento associadas às construções de moradia, que permitiam aos Licanantay do passado conservar o milho, batatas, feijões, quinoa e frutos coletados.

A produção excedente aumentava a segurança alimentar das populações, é claro, mas também tinha outra função. Aquilo que não precisava ser consumido imediatamente para a subsistência podia entrar nas redes de troca. E é nesse ponto em que a agricultura se encontra com as lhamas.

A domesticação das lhamas mudou a escala da vida andina

A lhama não surgiu como animal doméstico em um único lugar ou em um único momento. As pesquisas arqueológicas e genéticas indicam um processo gradual, ocorrido em diferentes regiões dos Andes ao longo de milhares de anos. Nesse processo, grupos humanos passaram da caça de camelídeos silvestres à proteção dos rebanhos, ao manejo e à reprodução controlada. As lhamas domésticas descendem de populações de guanacos selvagens.

Isso significa que não é correto atribuir a domesticação das lhamas exclusivamente ao povo Licanantay. A transformação aconteceu ao longo do tempo, em diversas populações andinas distintas. Porém, os Licanantay incorporaram o pastoreio de camelídeos a um sistema econômico e territorial especialmente complexo.

As lhamas forneciam carne, fibras e peles. Além disso, os rebanhos também podiam representar patrimônio para as famílias. Antes da chegada dos cavalos, mulas e burros trazidos pelos espanhóis, a lhama era o principal animal de carga dos Andes.

Ela não substituía o esforço humano, nem podia transportar muito peso individualmente. Ainda assim, foram as lhamas que permitiram ao povo Licanantay levar cargas por caminhos de altitude, terrenos pedregosos e longas travessias. Uma única lhama carrega uma quantidade limitada. Mas uma caravana inteira ampliava de forma considerável aquilo que um grupo conseguia transportar de um lugar para o outro.

Se a água e o solo fértil tornaram o cultivo possível, foram as lhamas que mudaram a escala do sistema. Sem elas, a agricultura dos oásis poderia alimentar comunidades próximas, mas teria bem menos capacidade de conectar terras férteis isoladas, pastagens de altitude e mercados distantes. O comércio de longa distância e a integração entre ambientes teriam alcance significativamente menor.

As caravanas ancestrais conectavam o mundo andino

Os caminhos atravessados pelas caravanas ligavam os oásis de San Pedro de Atacama ao altiplano de Lípez, ao noroeste da atual Argentina, a Tarapacá e a diferentes pontos da costa do Pacífico. Essas conexões variaram ao longo dos séculos, mas fizeram do Atacama um território de passagem, e também de articulação.

A arqueologia encontrou marcas concretas desse movimento. Há trilhas formadas pela passagem repetida dos animais, pontos de descanso conhecidos como paskanas, restos associados aos rebanhos e geoglifos próximos às rotas. O deserto que hoje pode parecer sem caminhos era atravessado por rotas conhecidas e utilizadas por gerações.

Por essas rotas circulavam produtos agrícolas, alimentos preparados, fibras, tecidos, cerâmicas, minerais, metais e objetos provenientes de ambientes distantes. Conchas do Pacífico chegavam ao interior. Itens produzidos nos oásis viajavam para outras regiões. Materiais do altiplano e das áreas transandinas encontravam novos destinos.

O conteúdo de cada caravana dependia da época, da rota e das relações entre as comunidades. Portanto, não devemos imaginar um comércio padronizado, semelhante à logística moderna. Muitas trocas estavam ligadas à reciprocidade, ao parentesco, às alianças e aos contatos mantidos entre famílias de diferentes regiões.

As lhamas transportavam bens, mas também relações

Uma caravana nunca levava somente mercadorias. Com os viajantes, circulava também o conhecimento sobre os caminhos, fontes de água, clima, cultivo, pastoreio e mineração. Movimentavam-se as técnicas, os estilos de cerâmica e tecidos, os rituais espirituais e as formas de organização social.

Essa circulação ajuda a explicar por que San Pedro de Atacama alcançou tanta importância no mundo andino. Seus oásis produziam alimentos e ofereciam pontos de permanência. Sua localização permitia conectar ambientes muito distintos e distantes. Além disso, o conhecimento das rotas tornava possível negociar passagens e manter relações para além da própria cuenca do Salar de Atacama.

O comércio, então, não era uma atividade isolada que acontecia depois da colheita. Ele fazia parte da maneira como o território funcionava. O excedente agrícola alimentava as trocas, e as trocas traziam produtos que não existiam localmente. Os rebanhos permitiam o transporte e  o conhecimento do deserto mantinha todo esse sistema em movimento e em constante evolução.

Agricultura e pastoreio dependiam um do outro

É tentador dividir a sociedade entre agricultores estabelecidos nos oásis e pastores que circulavam pelas áreas altas. Mas, na realidade, essas atividades estavam intimamente conectadas.

As aldeias agrícolas dependiam de produtos, animais e materiais vindos de outras altitudes. As áreas de pastoreio, por sua vez, mantinham relações com os núcleos onde havia cultivo, armazenamento e maior concentração populacional. Em muitos casos, famílias e comunidades se articulavam em diferentes espaços em vez de escolherem apenas um modo de vida.

Por isso, a lhama não deve aparecer nessa história apenas como um animal de carga que carregava sacos. Sua domesticação ajudou a consolidar o pastoreio, diversificou os recursos disponíveis e permitiu atravessar distâncias maiores levando e trazendo produtos agrícolas e artesanais.

Da mesma forma, o plantio não deve ser descrito apenas como uma vitória humana contra a aridez. Cultivar no Atacama significava conhecer os limites da água, reconhecer as restrições impostas pela salinidade, identificar onde o solo oferecia condições de cultivo e organizar coletivamente a infraestrutura necessária.

E o resultado não foi um domínio absoluto sobre o deserto, foi algo muito mais sofisticado: a construção de uma forma de vida capaz de explorar as possibilidades e restrições de cada ambiente.

O que a história Licanantay muda em uma viagem ao Atacama?

Conhecer um pouco da história e da cultura do povo Licanantay muda a forma como seus olhos enxergam o deserto. Um canal deixa de ser apenas uma vala por onde passa água, assim como uma área cultivada deixa ser apenas uma mancha verde na paisagem que surgiu por acaso e obra da natureza. Mas principalmente, as lhamas deixam de ser apenas um bicho bonitinho dos Andes para tirar fotos. A água, a terra fértil e as lhamas fazem parte de uma rede histórica de sobrevivência.

Por isso, conhecer o povo Licanantay é compreender que o Atacama nunca esteve vazio. Ele foi cultivado, percorrido, nomeado e organizado durante milênios. E continua sendo um território vivo, habitado por comunidades que não podem ser reduzidas a uma mera lembrança do período pré-colombiano.

Ao planejar sua viagem para o Deserto do Atacama, busque conhecer a região indo além dos cartões-postais. A Atacama Connection pode te ajudar a construir um roteiro que combina paisagens deslumbrantes com a história e o contexto do local, respeitando o ritmo e as características de cada lugar. Dentre os passeios oferecidos, certamente a Caravana Ancestral será um dos mais atrativos para quem deseja conhecer em primeira mão como vive o povo Licanantay hoje em dia e, é claro, desfrutar de um contato próximo com as lhamas e com a cultura do povo atacamenho.

Caravana Ancestral

Fontes consultadas:

Museo Chileno de Arte Precolombino: Economía dos povos atacamenhos

Museo Chileno de Arte Precolombino: Padrão de assentamento atacamenho

Memoria Chilena, Biblioteca Nacional de Chile: Licán Antai

Estudios Atacameños: Las sociedades Formativas de San Pedro de Atacama

Chungara: La naturaleza de la expansión aldeana durante el Formativo Tardío en la cuenca de Atacama

Estudios Atacameños: Evidencias formativas en una vía interregional entre San Pedro de Atacama y el Altiplano de Lípez

Chungara: Geoglifos y tráfico prehispánico de caravanas de llamas en el Desierto de Atacama

Animal Frontiers: The domestication of South American camelids, a review

Estudios Atacameños: Cambios y permanencias en los ayllus de San Pedro de Atacama

Estudios Atacameños: Se instaló el diablo en el Salar

Journal of South American Earth Sciences: Cenozoic subsurface stratigraphy and structure of the Salar de Atacama Basin